segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Estado x Cidade II

II
Outra questão da polêmica de Santos foi a crítica que a Câmara faz ao autoritarismo de Saturnino de Brito, ao exigir a aprovação de seu projeto e por chegar a pedir em artigos de jornal a intervenção do poder estadual na cidade. Brito era vinculado ao pensamento positivista que dava os moldes de boa parte do pensamento científico e social do final do século XIX em um Brasil que passava, no dizer de alguns críticos, por uma modernização conservadora (apesar do fim da escravidão e da chegada da República, os anseios de democratização da vida social não foram alcançados - outros autores utilizam ainda a expressão "modernização sem modernidade"), em que as oligarquias mantinham a hegemonia política e econômica.

Parte da intelectualidade do período, a chamada Geração de 70, formada por nomes como Euclides da Cunha (engenheiro, além de escritor) e Lima Barreto, foi um desses grupos que se frustraram com o crescente autoritarismo do governo de Floriano Peixoto. Em suas aulas, o professor Elias Thomé Saliba conta como José do Patrocínio foi um paradigma do intelectual brasileiro no período Guerra do Paraguai-abolição-república. Filho de ex-escravos e jornalista engajado, ele acaba sendo exilado por Floriano Peixoto. Em 1902, depois de ter voltado da Amazônia, decide construir um dirigível, que nunca deixa o solo – metáfora da própria participação dos intelectuais na vida política nacional.

Esse momento foi descrito desta forma pelo historiador Nicolau Sevcenko: "Dispondo de um indiscutível domínio sobre o aparato governamental desde 1894, esses estadistas desenvolveriam um singular processo de transformação do Estado num instrumento efetivo para a constituição de uma ordem liberal no país. Forma ousada de inspirar um arejamento do ambiente nacional de cima para baixo, já que o inverso não se revelara possível. Forma ousada e conspurcada pela própria natureza da sua origem".

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