I
Em 1913 a câmara governava o município e a prefeitura, braço executivo, era chefiada por um dos integrantes da casa. Belmiro Ribeiro de Moraes e Silva foi o prefeito durante os quatro anos de legislatura (1911-1914) e já havia sido vice-prefeito durante o último ano do mandato anterior (1908-1911), quando o Partido Municipal assumiu o governo. No período seguinte, ele voltaria à câmara como suplente e assumiria no último ano com a morte de Oswaldo Cochrane. Entre 1917 e 1920 voltou à prefeitura, participou posteriormente de mais um mandato e, entre 1929 e 1930, chegou à presidência da casa, mandato interrompido pela revolução de 30.
Mas quero me afastar da seara da ciência política. O motivo da apresentação dos cargos de Belmiro Ribeiro é para demonstrar a força política que detinha. Sua reação, de estranhamento à "censura descabida" por parte de um homem "ilustre, educado e representante do governo do estado", revela também o poder político do engenheiro que construiu os canais.
Funcionários municipais escrevem sobre as obras executados pelo município para equilibrar as críticas, mas Saturnino de Brito não recua: escreve artigos em jornais reclamando da má vontade da câmara em aprovar sua planta e de apenas atender "conveniências" de amigos. Em outro momento, pede a intervenção do Estado no município, argumentando que a cidade não teve condições – técnicas e financeiras – de construir sozinha as obras de drenagem e impedir a continuidade da calamidade das epidemias.
Aí a câmara passa a rebater com mais força e contrata um profissional para preparar a resposta, o jornalista e historiador Alberto de Souza que redige o libelo O município de Santos perante e Comissão de Saneamento, publicado em 1914 com um parecer jurídico e outro técnico como anexos. O jornalista-historiador entra pela porta retórica aberta pela expressão "censura descabida" e parte para cima de Saturnino de Brito, chamando-o de arrogante e vaidoso e considera que as "glórias sanitárias" do engenheiro encheram-no de "ridícula soberba". Diz que a capacidade técnica de Saturnino de Brito não lhe dava "parcela alguma de autoridade moral para emitir sobre tão conspícuos cidadãos santistas juízos deprimentes e opiniões desairosas" e que sua reação demonstrava um "violenta impulso de desequilíbrio cerebral, determinado pela hipertrofia do órgão do orgulho".
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