segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Histórias e Lendas de Santos - Canais I

A guerra entre Saturnino e a Câmara santista

- Polêmica - Estado X cidade

I
Em 25 de abril de 1913, o engenheiro sanitarista carioca Francisco Saturnino Rodrigues de Brito inicia uma disputa política e intelectual com a Câmara Municipal de Santos. Nesta data ele encaminha um ofício à câmara em que exige a aprovação da Planta de Santos, projeto elaborado pelo urbanista e apresentado ao município também por ofício, em 30 de dezembro de 1910.
Saturnino de Brito era o encarregado em Santos da Comissão de Saneamento, órgão estadual organizado para conter as epidemias do final do século XX. Seu trabalho era iniciar a construção de nove canais de drenagem da cidade, iniciada em 1907 e que seguiria por mais duas décadas. Em 1910, apenas os canais 1 e 2 estavam prontos, substituindo antigos rios e córregos que se encharcavam com a chuva ou com as marés. Mas as epidemias já haviam se reduzido e o café trazia mais e mais recursos para a cidade.
É quando apresenta a planta, uma contribuição do seu intelecto à organização urbana. Mas a planta de Saturnino não está só no papel. Ele desenha o próprio solo: com o poder de intervenção da comissão estadual, o engenheiro marca a ferro e cimento os terrenos (ocupados ou não) com os traços da nova cidade para que os representantes do poder municipal pudessem perceber, no chão mesmo, o projeto.
A resposta da Câmara é encaminhada em 13 de janeiro de 1911 ao chefe interino da Comissão de Saneamento, Miguel Francisco Presgreave. A assinatura é do vice-presidente da Câmara, em exercício, Dr. Moura Ribeiro, que acusa e agradece o recebimento da oferta da planta.
Saturnino conhecia a vigente planta, aprovada pela câmara em 1905. O desenho é de um quadriculado sem fim do centro antigo em direção à barra e à Ponta da Praia. Todas as ruas, avenidas e quadras com as mesmas dimensões. Só que naquele momento, a ocupação do trecho Leste da ilha de São Vicente ia do Centro e do Paquetá (bairro colonial e imperial, respectivamente) até o Macuco e a Vila Matias (bairros de trabalhadores, em franca expansão) e se esticava pelas avenidas Ana Costa e Conselheiro Nébias até a barra, cuja orla era ocupada também por casarões da burguesia. Pouco mais havia e o quadriculado monótono nunca se implantou.
A grande novidade da planta de Saturnino é a Avenida Afonso Pena, que corta a cidade de Leste a Oeste, cortando ao meio a orientação Norte-Sul da expansão em direção à orla. A avenida e os jardins da praia são desenhados como faixas de jardins e de concentração de área verde. Na planta, os jardins e faixas da Avenida Afonso Pena têm a mesma extensão do que os jardins e faixas de rolagem da avenida da orla. Com o traçado diagonal acompanhando a curva do canal do estuário, a via é até hoje o principal corredor de comunicação entre a Encruzilhada e o cais (se contarmos sua continuidade, a Avenida Guilherme Álvaro, o corredor vai em direção oposta da Encruzilhada até o sopé do Morro do José Menino, riscando a Zona Leste de ponta a ponta).

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